
Bem-vindos a Tora-Bora. Verdades de destruição maciça, resoluções de nações desunidas, ataques verbais preventivos. A arma é só uma palavra. Notícias, diferentes daquilo que se vislumbra à vista desarmada.
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Eleições EUA vistas do Irão
EUA
Vitória de Bush pode originar guerra civil no interior dos republicanos. [nytimes.com]
RÚSSIA
Autoridades russas afirmam que os 31 sequestradores da escola de Beslan eram não só islamistas radicais como toxicodependentes.
IRAQUE
Entre Baasistas, jihadistas, fiéis a Saddam e combatentes da Al-Qaida, quem são os guerrilheiros iraquianos que combatem a "ocupação" norte-americana no Iraque? [jihadunspun.com]
IRAQUE
A lista das personalidades internacionais subornadas por Saddam Hussein. [memri.org]
Sérvia-Montenegro
O "site" de defesa do antigo presidente jugoslavo, Slobodan Milosevic, julgado em Haia. [slobodan-milosevic.org]
IRAQUE
"Relatório" da resistência iraquiana. [alfathumobin]
PORTUGAL
A réplica da Opus Dei ao livro "Código Da Vinci".
[topo]
Rajada Últimas informações da revolta da oposição na Ucrânia.
[tol.cz]
Rajada O site do movimento de resistência não-violenta ucraniana "Pora". Manifesto e notícias.
Rajada O site do candidato pró-ocidental Viktor Yuschenko que reclama a vitória nas eleições de domingo.
Contexto A fórmula de revolução na Ucrânia. 198 métodos de protesto e persuasão não-violentos.
Contexto Artigo do "Courier des Balkans". Otpor, revoluções ao domicílio.
Contexto Eleições presidenciais na Ucrânia e a visita de Putin a Kiev. Relatório Public Opinion Foundation - Moscovo.
e... O hobbie do candidato pró-ocidental, a apicultura... "Gosto de comparar a organização das colmeias à organização da sociedade".
[topo]
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Kalashnikov é um blogue independente que se responsabiliza por todas as opiniões publicadas nesta página. Textos de José Miguel Sardo, Dulce Dias e Ricardo Figueira. Envie os seus comentários, ou propostas de artigos, a kalashenikov.mail.pt.
Apesar do enorme drama humano, o tsunami que assolou a Ásia vai custar pouco às seguradoras. Explicação: os pobres não têm seguro.
O custo da tragédia, para as seguradoras, é inversamente proporcional ao drama humano e aos estragos. Quem o afirma é a própria Swiss Re, uma das maiores re-seguradoras do Mundo, num comunicado emitido esta quinta-feira. A companhia diz que vai ter de pagar menos que o inicialmente previsto - menos de 100 milhões de francos suícos (65 milhões de euros). A notícia fez as acções das seguradoras dispararem, depois de vários dias de quedas.
É o lado cruamente economicista da tragédia que terá colhido mais de 120 mil vidas e afectado gravemente as economias de países, já de si pobres, que vivem em grande medida do turismo. É a dura realidade e os economistas confirmam-no: as vítimas do desastre foram, sobretudo, pessoas pobres com pouca ou nenhuma cobertura em termos de seguros e as grandes companhias internacionais têm uma fraca exposição nesta zona do Globo.
Os números confirmam-no. Basta comparar os custos económicos desta catástrofe com o de desastres anteriores:
Tsunami (Ásia, 2004) - 10 mil milhões de euros
Furacão André (EUA e Caraíbas, 1992) 30 mil milhões (3 vezes mais)
Terramoto de Kobe (Japão, 1995) - 130 mil milhões (13 vezes mais)
(Fonte: Reuters)
Dá que pensar, não?
RF
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(Foto AFP Apoiantes de Iuschenko assistem a discurso do opositor Viktor Ianukovitch durante comício laranja em Kiev)
Dois dias depois da "terceira volta" das presidenciais na Ucrânia é a vez do candidato pro russo Viktor Ianukovtich brandir acusações de fraude eleitoral, e de ameaçar recorrer ao supremo tribunal do país.
Um mês depois dos observadores internacionais presentes no país terem apontado os actos fraudulentos da segunda volta, a comunidade ocidental mostra-se no entanto satisfeita com o decorrer desta terceira volta com que o "ocidente" combateu os maus hábitos soviéticos do passado. Mas agora é o campo pró-russo que contra-ataca com as mesmas armas. Mesmo se Ianukovitch afirme que não vai levar manifestantes para a rua, também não exclui a hipótese de "mobilizações expontâneas". O processo democrático saudado agora pelo campo dos EUA e da União Europeia parece uma vez mais encravado pelas vias legais que salvaguardam o próprio processo democrático.
(O brinde de Viktor Ianukovitch à democracia que lhe permite apontar as "fraudes" eleitoriais da repetição da segunda volta)
A Ucrânia volta assim pela segunda vez a duvidar do seu próprio sistema eleitoral, e democrático, e se antes se podiam apontar as culpas aos "maus hábitos soviéticos" e à cumplicidade de Moscovo, a quem apontar agora as culpas se o Supremo Tribunal decidir uma vez mais invalidar o escrutínio? Claro que a presença de milhares de observadores internacionais garante agora mais fiabilidade ao acto eleitoral, mas que garantias existem, uma vez mais de que a maioria da Ucrânia, à semelhança do que se passa por exemplo na Bielorrússia ou na pequena região moldava da Transnistria, não quer mesmo ver um regime pró-russo no poder, apesar de todas as promessas pró-ocidentais. O país volta a estar à beira da cisão ou tudo não passa uma vez mais de um grande "bluff"? Pelo sim pelo não Vladimir Putin lançou uma palavra de advertência ao que chamou de "sistemas de revolução permanente", que segundo ele recorrem a processos ilegais para resolver problemas políticos nas antigas repúblicas soviéticas. Uma mensagem claramente endereçada aos movimentos "derivados" do Otpor sérvio que conduziram à queda de regimes pró-soviéticos na Geórgia, Sérvia, e agora, na Ucrânia, e que tentam repetir o feito na Bielorrússia.
A Ucrânia continua assim a ser o campo de batalha de uma guerra fria que não arrefeceu tanto quanto alguns pensariam. Os atentados de 11 de Setembro podem ter unido o mundo contra o terrorismo, mas as divisões do passado continuam bem visíveis, a prova está nas antigas repúblicas soviéticas, divididas agora entre um bloco europeu e o antigo bloco soviético. Nunca é demais lembrar que a pressão ocidental sobre a Ucrânia e as manifestações laranja aumentaram de tom quando o parlamento do país aprovou a integração da Ucrânia numa zona económica que incluiria a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia. Falta agora conhecer o desfecho da tensão no país entre laranjas e azuis, entre as revoluções desbotadas do vermelho do passado e dos conservadores que já foram revolucionários vermelhos. Falta agora saber que democracia vai vingar e se afinal existem mesmo modelos ocidentais e orientais, e qual dos dois é o mais democrático, ou seja, aquele que representa mais o "povo" ucraniano.
José Miguel Sardo
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O Kalashnikov congratula-se por saber que duas famílias francesas, este ano, vão ter um Natal mais feliz e aproveita para desejar Boas Festas aos leitores.
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A história do ministro, da amante e da baby-sitter dela mais parece um romance de cordel, mas a verdade é que o até agora intocável David Blunkett foi a primeira vítima e demitiu-se. Pode um golpe baixo como este vencer?
A história que levou à demissão do ministro britânico do Interior só me faz lembrar palavras terminadas em -éria. A pilhéria de que foi vítima; a galdéria que o tramou. David Blunkett bateu-se para que a sua amante Kimberly Quinn, editora de um jornal conservador e mulher de um milionário, reconhecesse o filho de ambos. Para proteger os seus interesses (e os do corno), Quinn vingou-se e denunciou um alegado caso de favorecimento. Blunkett terá facilitado a obtenção de um visto de residência a uma empregada filipina que trabalhava para ela.
O que chateia nesta história não é saber que um caso de cama, que seria um episódio sem importância não fosse o facto de envolver uma criança - e que, mesmo assim, pertence exclusivamente à esfera privada e daí nunca devia ter saído - levou à demissão de um político com uma carreira brilhante, que conseguiu fazer de uma deficiência física um trunfo e não um obstáculo.
Não é, tão-pouco, saber que a desculpa para a demissão foi uma reles história de cunhas e favorzitos, igual a tantas outras, que se praticam sempre, em todo o lado, por toda a gente.
O que chateia é pensar que quem sai a perder é a pessoa mais honesta em todo este caso e quem sai a rir é quem se usou da arma mais soez - a denúncia - por razões de vingança. Ou será que não é assim? Blunkett pode ter-se demitido, mas a opinião pública sabe julgar e de uma coisa Kimberly Quinn não se livra: para o povão, ela será sempre a víbora neste conto.
RF
Leia aqui o que Boris Johnson escreveu sobre o tema.
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"Os jornais devem divulgar ideais sãos. Os ideais de esquerda não são sãos". Esta declaração, por muito infeliz que seja, seria perfeitamente aceitável numa sociedade democrática e pluralista como a nossa, onde todos têm o direito a dizer o que bem lhes passa pela cabeça... se não viesse do maior patrão da imprensa francesa, que é também o homem mais rico do país, com uma conta bancária a rondar os dez mil milhões de euros, dono de um império no sector da defesa, senador e presidente de uma Câmara Municipal. Conheça Serge Dassault, o novo Citizen Kane francês.
Quando, em Junho deste ano, a União Europeia autorizou o grupo Dassault a comprar 82% do grupo Socpresse e tornar-se assim dono do "Le Figaro", do "L'Express" e de um terço da imprensa regional francesa (incluindo o parisiense "France-Soir", o "Le Progrès" de Lyon e o "Dauphiné Libéré"), multiplicaram-se os trocadilhos. Afinal, o nome Dassault é dado a isso - "prise d'assault" significa, em francês, "tomada de assalto".
Uma tal concentração é preocupante, mas não deve ser ilegal. Afinal, a pluralidade continua a ser garantida. A imprensa conservadora gerida por Dassault tem todo o direito de existir, tal como a imprensa de esquerda, como o "Libération" ou o "L'Humanité" (que - sinais dos tempos - caíram também nas mãos de grupos económicos). Tal como o público tem também direito a uma imprensa isenta, que não seja controlada opr este ou aquele grupo de pressão. Deve haver espaço para todos. Desde que a tomada de posição seja claramente assumida (o que é o caso do Figaro, que foi desde sempre um jornal de direita) - e isso não entre em conflito com questões deontológicas, Dassault tem o direito de veicular as suas opiniões nos meios que possui.
Mas não tem o direito de exigir que todos alinhem pelo mesmo diapasão. Ter alguém com o poder de Dassault a defender posições totalitárias e com laivos de fascismo, como as proferidas em entrevista à France Inter, é absolutamente inaceitável.
É preciso contar a realidade, não a ficção. Vivemos na ficção e os jornais continuam-na ao dizerem "o Sr. fulano de tal disse isto, o Sr. Hollande (secretário-geral do PS) disse aquilo, o Sr. CGT (principal central sindical francesa) disse aqueloutro". Os jornais devem contar isso, mas ao mesmo tempo dizer "isso é um erro, não vai funcionar" Dassault dixit.
Por outras palavras, a esquerda só diz baboseiras e os jornais só devem poder repeti-las se, ao mesmo tempo, advertirem que se trata de baboseiras. Ou seja, além de dono de um império da comunicação, Dassault quer também tornar-se dono do pensamento. Talvez este senhor gostasse de trocar umas palavras com ele.
Ricardo Figueira
Artigo sobre as declarações de Dassault aqui (Nouvel Observateur).
Artigo sobre a fortuna de Dassault aqui (Nouvel Observateur).
Entrevista à France Inter aqui (áudio).
Artigo do observatório francês dos media aqui.
Petição contra a concentração dos media aqui.
Sítio oficial do grupo Dassault aqui
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Iuschenko vai ser um presidente limitado nos seus poderes pelo seu antecessor. Confrontos entre apoiantes da oposição e de Ianukovitch em Dontesk, bastião pró-russo. Estados Unidos financiaram oposição na Ucrânia e sondagens que davam líder laranja como vencedor. Washington financiou e formou um dos grupos de observadores internacionais que supervisionaram a segunda volta das eleições de dia 21 de Novembro. Moscovo e Washington negam sintoma de "guerra fria" na crise eleitoral que dá lugar a novas eleições sobre alta vigilância ocidental.
Viktor Iuschenko tem a porta aberta para o cargo de presidente, mesmo que as suas competências se afigurem agora menores do que as do seu antecessor Leonid Kuchma. Para realizar o acordo que permitiu o fim da crise no Parlamento, o líder laranja teve que fazer uma concessão ao ainda presidente: o de permitir a diminuição dos poderes do chefe de estado face ao aumento das competências do governo e do primeiro-ministro. A medida só deverá ser aplicada depois das próximas legislativas, mas deixa uma porta aberta ao regresso do "clã" pró-russo ao poder e o seu eventual controlo reforçado sobre os destinos do país que pode afinal estrangular a revolução laranja.
O fim aparente da crise política não tirou todos os manifestantes das ruas. Vários "piquetes" laranja continuam prontos para voltar a ocupar os edifícios públicos ao mínimo indício de fraude nas eleições de dia 26 de Dezembro. A campanha eleitoral iniciou-se oficialmente quando Viktor Ianukovitch pediu a suspensão temporária das suas funções antes mesmo de ter chegado a um acordo com a oposição. Do lado de Moscovo o silêncio de Putin sobre o seu apoio a Ianukovtich, contrasta com as declarações proferidas pelo presidente da Duma (Câmara baixa do parlamento russo) que há dias afirmara que o voto em Ianukovitch seria o único que garantiria a unidade da Ucrânia.
O actual presidente Leonid Kuchma e o seu possível sucessor, e opositor, Viktor Iuschenko
Apesar da ligeira acalmia na torrente de informações, notícias publicadas nos últimos dias dão conta de alguns confrontos em Donetsk, bastião a Leste dos governantes pró-russos, entre apoiantes de Ianukovitch e membros do movimento "Pora", já em campanha por Iuschenko. Segundo relata o Kyiv Post, um grupo de mais de uma dezena de membros do "Pora" terão sido agredidos por apoiantes do primeiro-ministro e candidato presidencial, quando tentavam instalar algumas tendas no centro da cidade de Donetsk, numa estratégia similar àquela utilizada em Kiev para apoiar o candidato da oposição.
E se de um lado a campanha eleitoral se aproveita da notícia do alegado envenenamento de Viktor Iuschenko por membros dos serviços secretos, do lado de Ianukovitch os seus apoiantes rejubilam com as notícias que referem o apoio dos Estados Unidos à campanha do líder da oposição. Segundo a agência noticiosa norte-americana Associated Press, " a administração Bush gastou mais de 65 milhões de dólares em ajudas a organizações políticas na Ucrânia, pagando viagens a Iuschenko para se encontrar com líderes norte-americanos e financiando as sondagens que previam a vitória da oposição na segunda volta das eleições. As autoridades norte-americanas afirmam que estas actividades não tinham por objectivo interferir nas eleições ucranianas, como o afirma o presidente Vladimir Putin, fazendo parte das medidas tomadas pelo Departamento de Estado Norte-americanas à luz do orçamento de mil milhões de dólares anuais destinados a financiar a construção da democracia no mundo. Segundo alguns responsáveis o dinheiro não foi entregue directamente a partidos políticos, mas canalizado para estes através de organizações como a "Eurasia Foundation" ou através de grupos próximos dos republicanos e dos democratas que organizaram a preparação das eleições em conjunto com organizações de direitos humanos e meios de comunicação independentes".
O telex da AP prossegue assim: "Os mesmos responsáveis admitem que algum do dinheiro foi utilizado para o treino de grupos e de indivíduos opostos ao candidato pró-russo - pessoas que agora se autoproclamam parte integrante da revolução laranja. Por exemplo, um dos grupos que obteve financiamento através de organizações apoiadas baseadas nos Estados Unidos foi o Centro para as reformas políticas e legais (Center for Political and Legal Reforms), cujo sítio internet tem uma ligação para o sítio de Iuschenko incluído numa página denominada "parceiros". Outro projecto baseado nos Estados Unidos, a Agência para o desenvolvimento internacional (Agency for International Development), trouxe o ano passado a Washington vários membros do Centro para asreformas políticas e legais para um sessão de formação de três semanas em advocacia política".
O telex da AP refere ainda que: "As sondagens, financiadas elas embaixadas dos Estados Unidos e de sete outros países assim como por quatro fundações internacionais, apontavam a vitória de Iuschenko na segunda volta das eleições de dia 21 com 54% contra 43% do seu opositor. Ianukovitch e os seus opositores afirmaram que a estatística tinha sido prevertida. Os grupos ucranianos que entrevistaram mais de 28 mil eleitores não disseram quanto custou a sondagem. O governo norte-americano também não. Das quatro fundações envolvidas nas entrevistas encontravam-se três financiadas pelo governo americano. Os outros países envolvidos foram o Reino Unido, a Holanda, a Suiça, Canadá, Noruega, Suécia e Dinamarca".
E para concluir: "O Departamento de Estado atribuíu ao National Democratic Institute, um grupo de especialistas em política externa quase 48 milhões de dólares para programas de construção da democracia em todo o mundo. A antiga secretária de estado Madeleine Albright dirige o conselho de administração da organização. O NDI organizou a equipa de a equipa de 35 observadores eleitorais, chefiados pela juíza do tribunal federal Abner Mikva, que supervisionou a segunda volta das eleições no dia 21 de Fevereiro".
José Miguel Sardo
Telex AP integral aqui
E a número dois da oposição, Iulia Timochenko é procurada pela Interpol? aqui
E ainda... como o canal 5 da Ucrânia apoiou Iuschenko.
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Ao final de doze semanas de protestos internos e de movimentações diplomáticas de Washington a Moscovo, o Supremo Tribunal ucraniano reconheceu as fraudes cometidas durante a segunda volta das eleições presidenciais. A repetição do sufrágio deverá ser convocada para dia 26 de Dezembro. A data do fim do regime pró-soviético de Kuchma. Em Kiev festeja-se a vitória da oposição, mas o que é que se vai passar em Donetsk, onde milhares de pessoas se manifestaram há dias a favor do primeiro-ministro Viktor Ianukovitch e contestado vencedor do sufrágio?
A oposição ucraniana rejubila em Kiev depois de ter conseguido conquistar a rua, a comunidade internacional, e agora o Supremo Tribunal. O mesmo colectivo de juízes que nos anos noventa tinha aberto o caminho ao presidente Leonid Kuchma para se eternizar na presidência, cedeu hoje aos argumentos de fraude denunciados pela oposição fiel a Viktor Iuschenko. Uma decisão que põe fim a dez anos de "regime" Kuchma marcado por uma reaproximação do país a Moscovo, depois dos três anos de independência (1991-1994) do país terem sido caracterizados pelo reformismo económico e político de Viktor Iuschenko, antigo primeiro-ministro e governador do banco central ucraniano.
A Ucrânia encaminha-se agora para o modelo de democracia "ocidental" depois do Supremo Tribunal ter condenado de uma forma simbólica o regime herdeiro da nostalgia soviética e os seus métodos fraudulentos. O final da era pós-soviética na Ucrânia não foi despoletado nem por uma revolta violenta, nem esmagado por uma operação militar musculada. Doze dias depois do cenário da crise política evocar os tempos da guerra fria com os discursos cruzados de Washington e Moscovo, a revolução "legal" da Ucrânia representa uma novidade na história das antigas repúblicas soviéticas. Um sistema político corrupto pode afinal conter um sistema legal "justo". No entanto e até à última hora, Leonid Kuchma e Viktor Ianukovitch tentaram, num último esforço despótico, pressionar o Supremo Tribunal a convocar novas eleições com novos candidatos, de forma a poderem apresentar um candidato pró-russo mais popular que o ainda primeiro-ministro.
Anos depois do parlamento ucraniano ter aprovado a alteração constitucional que permitiria a Kuchma recandidatar-se para lá do limite de três mandatos, os deputados do país votaram uma moção de censura ao presidente e ao primeiro-ministro. A originalidade desta revolução de veludo vem da forma como a oposição conseguiu não só movimentar as pessoas na rua mas também no interior das instituições cúmplices do regime pró-russo, como por exemplo a polícia. Falta agora saber se o novo regime conseguirá responder às expectativas democráticas da população e da comunidade internacional. Um ano depois da "revolução das rosas" na Geórgia, as esperanças em Mikhail Saakashvilli começam a dissipar-se face à incapacidade do político em lidar com a crise económica no país.
Apesar das certezas em torno da eleição de Iuschenko, que já tinha vencido a primeira volta das eleições fica por saber o resta de nostalgia soviética no país. Dezoito regiões do Leste do país tinham anunciado há dias a preparação de um referendo à autonomia da zona oriental do país, pouco tempo depois milhares de pessoas manifestaram-se em Donetsk para pedir a transformação do país numa federação como forma de garantir a autonomia política da região mineira. As eleições marcadas para dia 26 irão não só finalmente mostrar qual a legitimidade da revolução laranja, mas também quantos ucranianos apoiavam afinal o regime Kuchma.
A decisão do Supremo Tribunal ucraniano representa também uma derrota política e diplomática para Vladimir Putin que se isola ainda mais a Leste. Na geografia da antiga União Soviética ficam no entanto outros retalhos de território que continuam a defender a nostalgia soviética como a única terapia contra a crise social e económica das regiões isoladas dos grandes blocos, como a Abcásia, na Geórgia, ou a Transnistria, na Moldávia. Hoje criou-se mais uma alínea nas tipologias das revoluções democráticas pró-ocidentais, mais um argumento para os movimentos de oposição que, em países como a Bielorrússia continuam silenciados pelos métodos soviéticos do regime.
José Miguel Sardo
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A data terá passado despercebida a muita gente. A 2 de Dezembro de 1804, faz hoje exactamente 200 anos, Napoleão Bonaparte era sagrado, na catedral da Norte-Dame, em Paris, como Imperador Napoleão I. Um gesto que muitos líderes actuais gostariam de tomar, mas têm vergonha.
A República Francesa coibiu-se de toda e qualquer manifestação oficial para celebrar a data. As comemorações limitam-se a uma meia-dúzia de gatos pingados que quiseram celebrar uma missa. Mas, apesar desta contenção, o cônsul que se tornou Imperador continua a ser um dos tiranos mais adorados pelo povo. Ao contrário de outros ditadores megalómanos, como Hitler ou Mussolini, Napoleão recolhe alguma simpatia - os retratos e bustos ainda se vendem, tal como relíquias de todo o tipo, como réplicas das armas usadas por ele. Em Lyon, há uma ponte com o seu nome e uma rua com o de um dos generais mais odiosos da Guerra Imperial - Massena. Isto sem esquecer que a sua biografia é tão popular como a Bíblia. O todo-poderoso líder da Microsoft, Bill Gates (dono de um poder que Napoleão nunca teve, apesar do Império) é um coleccionador de biografias do corso.
Napoleão é, hoje, um modelo para muita gente. Quis levar os ideais da paz e da liberdade através do Mundo - e para isso utilizou-se da guerra. Alguma semelhança com a "pax americana" de Bush não é pura coincidência. Criou um Estado centralizado, burocrático e com um poderio militar único, tal como Vladimir Putin, aspirante a novo Czar Vladimir I, quer fazer na Rússia (mas não tem meios). Por fim, tentou pela via militar a conquista do Mundo - falhou aquilo que outros, 200 anos mais tarde, conseguiram por via económica.
A diferença é que Napoleão teve coragem para se sagrar Imperador pelo Papa, na Norte-Dame, a 2 de Dexembro de 2004.
RF
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Sampaio desligou ontem a incubadora, o bébé prematuro não tinha afinal condições para sobreviver.
Quatro meses depois de Jorge Sampaio ter confirmado a nomeação de Santana Lopes para o cargo de primeiro-ministro falando de estabilidade política, o presidente voltou atrás na decisão em nome da "estabilidade política" do país. Quatro meses depois dos principais grupos económicos portugueses apoiarem publicamente a continuidade da coligação PSD e CDS no governo, os grupos económicos e os patrões sublinham a forma como a crise económica se agravou e como o actual governo perturba a tão desejada retoma económica. Santana Lopes deixa o governo dias depois de Portugal erguer em Belém a maior àrvore de natal da Europa. Ontem o Presidente da República decidiu dissolver o parlamento e convocar eleições antecipadas, à mesma hora em que deveria estar a receber a Associação Portuguesa dos Doentes Crónicos no Palácio de Belém.
De quem é afinal a culpa da crise política em Portugal, da saída furtiva de Durão Barroso para Bruxelas, ou de Jorge Sampaio que confirmou a nomeação de um primeiro-ministro eleito por uma pequena minoria dentro do seu parlamento? As duas teorias defendidas à esquerda e à direita nas últimas horas omitem a questão principal que se refere à competência de Pedro Santana Lopes. No Ministério da Cultura, no Sporting, na Figueira da Foz e em Lisboa, Santana Lopes deixou um rasto de conflitos e problemas económicos graves. No governo, para lá de prosseguir o liberalismo económico de Durão Barroso, Santana deveria assegurar a estabilidade, mas semeou a desconfiança. O projecto de criar uma central de comunicação, as pressões sobre a comunicação social, um orçamento de Estado vivamente criticado, e a demissão de um dos mais santanistas dos ministros do executivo no domingo adensaram o clima de desconfiança, e consequentemente a pressão sobre o Presidente da República para convocar novas eleições.
Há no entanto uma virtude que não se pode negar a Santana, a ambição. Ao final de décadas de carreira política, deixa como rasto um estranho oásis na praia da Figueira da Foz, uma árvore de Natal gigantesca em Belém e um centro cultural que tem o seu nome, mesmo que não tenha no programa sonatas de Chopin para violino. Santana pretende recandidatar-se às eleições, segundo o que deixou entender ontem. Caso o faça poderemos saber nas urnas se afinal a política serve para conquistar corações ou mentes, e se os dois milhões de euros de investimento na central de comunicação eram afinal indispensáveis para elevar o astral dos portugueses.
JMS
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