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Sábado, Outubro 30, 2004

Osama Bin Laden exerce direito de resposta



Desaparecido há mais de um ano, em local desconhecido, algures na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, Osama Bin Laden ressurgiu na sexta-feira nos ecrãs de televisão com um discurso próximo dos democratas norte-americanos quase como quem quer dizer que não vai votar Bush, mas ao mesmo tempo a deixar uma recado a John Kerry.

Um discurso mais político que guerrilheiro nos ecrãs da Al-Jazira. Sem lançar novas ameaças, ao contrário do que referem alguns media, o milionário de origem saudita atacou ontem Bush, a quatro dias das eleições presidenciais, deixando uma mensagem clara - os ataques contra os Estados Unidos irão continuar se Bush se mantiver no poder. Segunda repreensão clara ao presidente norte-americano: Washington virou as costas à diplomacia em favor da violência das armas, provocando mais violência como resposta. O registo vídeo é a todos os níveis surpreendente, mostrando um Osama Bin Laden mais intelectual que nunca, que tenta justificar mas não arrepender-se das suas acções. Pela primeira vez não há referências religiosas, nem a raiva cega que justifica todos os ataques. Osama Bin Laden fala como se o seu discurso se tratasse de um manifesto de um movimento independentista, declarando-se, à semelhança de Bush e Kerry um defensor da liberdade.



Também pela primeira vez o líder da Al-Qaida assumiu a responsabilidade nos atentados de 11 de Setembro, apontando-os como uma resposta ao ataque israelita sobre o Líbano em 1982, evocando "a destruição dos arranha-céus de Beirute" como o momento de inspiração para o plano de atacar as torres gémeas. Quatro anos depois da subida ao poder de Bush, o face a face com o seu inimigo figadal que até agora conseguiu-se escapar a todas as manobras de captura, pode significar tanto uma derrota em forma de humilhação para o presidente norte-americano, como um pretexto para fazer ressurgir o mesmo líder que sobre as ruínas das torres gémeas fez da luta anti-terrorista a base da sua agressividade política. John Kerry que parece ter tudo a ganhar com este Osama Bin Laden transformado em Michael Moore, também se encontra numa situação difícil quando os republicanos continuam a acusá-lo de "fazer o jogo dos terroristas".

O que é certo é que esta ameaça eleitoral de Bin Ladenparece ser a surpresa pela qual os dois candidatos presidenciais tanto esperaram para poder desempatar nas sondagens. A nível da segurança do país as palavras do líder terrorista não foram suficientes para aumentar o nível de alerta norte-americano. A nível político testam-se agora nos discursos o homem que conseguir assegurar nas palavras a defesa da nação. O líder terrorista que esteve afinal no centro da campanha para as eleições norte-americanas assim como no centro dos 4 anos de mandato de George Bush, exerceu ontem o seu direito de resposta.

José Miguel Sardo


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Quarta-feira, Outubro 27, 2004

Uma história fictícia

Para ilustrar outra verdadeira...



Pela primeira vez na história, um governo europeu decide nomear um muçulmano para comissário.

Ouvido pelo Parlamento Europeu, o dito político é pressionado a pronunciar-se sobre a sua opinião pessoal sobre o uso do álcool. Ao fim de lhe ser feita esta pergunta várias vezes, o homem, tendo em conta as suas crenças religiosas, responde:

"O consumo de álcool, para mim, é um pecado".

Questão número um: partindo do princípio que o referido comissário tem consciência da separação entre posições políticas e religiosas, significa esta resposta que ele estará disposto a endurecer a legislação sobre o álcool ou a punir ou discriminar quem bebe?

Resposta: não.

Questão número dois: se o comissário for alvo de uma perseguição por parte do Parlamento por causa desta resposta, significa isso que está a ser alvo de uma forma de discriminação com base em crenças religiosas?

Resposta: sim.

Note-se que, apesar deste reparo, que considero correcto, concordo que talvez Rocco Buttiglione não seja o homem indicado para a pasta que lhe foi atribuída. Estou apenas a tentar desmontar a lógica que levou, hoje, Durão Barroso a não levar a sua equipa à votação no PE, prevendo-se uma remodelação.

Já agora, seria importante não esquecer que a Constituição Europeia, que vai ser assinada na sexta-feira, é fruto de uma Convenção presidida por um homem que, enquanto foi Presidente da República de França (1974-1981), não hesitou em mandar uns quantos para a guilhotina.



Será que disso ninguém fala?

Ricardo Figueira

Leia aqui a notícia sobre a decisão de Durão Barroso e aqui as actas oficiais da audição a Buttiglione (sem as questões sobre homossexualidade). Essas declarações estão reproduzidas, de forma parcial, aqui.


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Sábado, Outubro 23, 2004

A estratégia da humilhação



Depois do engenheiro britânico Kenneth Bigley, a trabalhadora humanitária Margaret Hassan implora pela vida frente à ameaça de uma câmara de vídeo. As imagens divulgadas esta sexta-feira na televisão Al-Jazeera voltam a levantar a mesma questão: a da cumplicidade dos media quando difundem este tipo de mensagens. Uma cumplicidade não só da parte da televisão do Qatar, que uma vez mais difunde integralmente a sulplica de um refém frente à objectiva de uma câmara, mas também de todos os outros canais que retransmitiram o mesmo registo vídeo, com o logotipo árabe que é cada vez mais sinónimo de ameaça de morte. Uma vez mais, a imagem difundida pelos canais de televisão é a mesma enquadrada por um operador de câmara amador que não é um profissional da comunicação mas sim um sequestrador. As palavras da refém não são espontâneas, o discurso é feito sob ameaça.

Nas principais cadeias internacionais de televisão as opções foram variadas. A CNN optou por mostrar uma imagem parada do vídeo, uma cara inexpressiva mas abatida. A BBC não mostrou as imagens. A SKY news oscilou entre mostrar uma parte do vídeo e mostrar apenas um dos "frames". A questão é sensível e volta a comprovar "estratégia da humilhação" utilizada nos últimos meses pelos grupos armados iraquianos. Nos ecrãs de televisão a postura dos reféns funciona já como uma morte simbólica, com códigos específicos entendidos por todos. Basta ler o artigo publicado hoje na edição "on-line" do jornal "The Times" para compreender a simbologia destes vídeos, a cara cansada, a roupa amarrotada, o olhar distante, o choro, as lágrimas e por vezes um fato de macaco cor-de-laranja, semelhante àqueles utilizados pelos prisioneiros da cadeia de Guantanamo em Cuba, que significa já uma condenação à morte.



Depois da execução do engenheiro Bigley, igualmente filmada e parcialmente difundida, estas novas imagens revelam-se ainda mais perturbadoras. Desta feita trata-se da reputada e reconhecida responsável de uma organização humanitária no Iraque - a "Care International" - que se encontra no país há mais de trinta anos. Meia-britânica, meia-iraquiana, Hassan é casada com um cidadão iraquiano, e no seu currículo conta com uma longa carreira ao serviço dos iraquianos nomeadamente durante a primeira guerra do Golfo. Uma mulher de quase sessenta anos respeitada pela coragem com que superou as piores décadas iraquianas. Frente a este grupo desconhecido, que apresenta as suas reivindicações através das lágrimas e das palavras de Hassan, a figura pública, desfigura-se, e a televisão que constrói o perfil das personalidades públicas, não hesita agora em desfigurá-la, sublinhando pela imagem a sua impotência.

A pose de Hassan é já uma morte simbólica, anunciada pela televisão, reforçada pelo discurso recitado frente à câmara quando afirma que "estas podem ser as últimas horas da minha vida". O décor, o local, o contexto político, o desespero, e o apelo a Tony Blair para que retire as suas tropas do Iraque, asseguram a um grupo de raptores a certeza de ver o seu registo de vídeo divulgado em todas as televisões do mundo.

José Miguel Sardo


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Sexta-feira, Outubro 22, 2004

A queda do líder mas não do regime



A poucos dias das omnipresentes eleições norte-americanas, Fidel Castro caíu frente ao mausoléu de Che Guevara, na povoação de Santa Clara em Cuba. Mas levantou-se, pediu perdão às 30 mil pessoas que tinham assistido a um discurso de uma hora, fez um diagnóstico em tom de notícia dizendo que, para evitar especulações na imprensa, tinha talvez um braço e um joelho partido.

Talvez protegido pela aura do médico boliviano e combatente "Che", Fidel Castro acabou apenas por ter um joelho partido. Já foi operado em Havana e ao que parece já se endereçou aos cubanos para explicar passo a passo a operação cirúrgica a que foi submetido. À semelhança de João Paulo II, falar do estado de saúde de Fidel Castro é falar do fim de um ciclo que arrasta muitas perguntas. Ficamos apenas pela curiosidade de que esta notícia teve um amplo espaço de divulgação nos media norte-americanos. A CNN foi mesmo das primeiras a falar deste tema.

O debate democrático nos Estados Unidos pode fazer caír Fidel sem a necessidade de armas? Mas Fidel levantou-se, e ainda abalado pela queda, prenunciou que a imagem da sua queda iria aparecer em todos os jornais. Acertou. O estado de saúde do líder é segredo de estado. Em 2001 desmaiou durante um longo discurso. Agora, o o líder comunista, ateu, ocupa o mesmo espaço mediático do Papa, com lugar na necrologia dos media, merecendo destaque cada vez que tropeça. Afinal foi só uma queda, ou é já a queda de Fidel? Washington por seu lado também mantém a estratégia da guerra fria, ao ter afirmado que duvidava da "convalescença" rápida de Fidel anunciada pela imprensa cubana.

José Miguel Sardo


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Terça-feira, Outubro 19, 2004

Descubra as diferenças




Esta faz-me lembrar a anedota do ratinho que corria ao lado do elefante e, às tantas, vira-se para o lado e diz: "já viste a poeira que estamos a fazer?"

RF


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Lampedusa: Europa

Mais próxima da Líbia que da Sicília, mais próxima de África que da Europa, a ilha italiana de Lampedusa é no entanto o portal de entrada no velho continente para milhares de clandestinos, mais propriamente, 9 mil, desde o início do ano, que empreendem o sentido inverso das caravelas e dos cargueiros. Um drama humano que Khadaffi utilizou para se reabilitar em Bruxelas e que Roma e Berlim querem estancar com a criação de campos refugiados ao longo da costa africana.



A proposta de Roma e de Berlim de criar campos de acolhimento de imigrantes ilegais ao longo da costa do norte de África, ou em Malta e Chipre, como tinha proposto antes Tony Blair, volta a lançar a mesma interrogação sobre a forma de lidar com o fluxo migratório que diariamente tenta a sua sorte, lançando-se na aventura da emigração, quer partindo da costa africana em embarcações artesanais, quer dos países do Leste da Europa, à margem da União Europeia.

O projecto de Roma e Berlim passa pela construção de campos de refugiados, ou "centros de informação", como Roma os apelida, onde os candidatos à imigração, nomeadamente refugiados políticos poderão apresentar a sua "candidatura", aguardando por uma resposta no interior desses locais. O projecto ganha contornos ainda mais estranhos quando, por exemplo, Itália defende a criação deste tipo de instalações na Líbia - o país de cujos portos parte a maior parte do fluxo de imigração clandestina que toca as costas da ilha de Lampedusa.

Uma situação a que se opuseram, de imediato, países como Espanha e França. O ainda comissário europeu da justiça António Vitorino, salientava há dias, num artigo publicado no "Público On-line" a necessidade de garantir cinco condições, algumas delas complexas: a manutenção, por parte da União, do respeito pelos valores humanitários e pelos direitos do homem; a vontade de cooperar por parte dos países africanos em causa; a adesão de todos os países candidatos a receber os campos de "acolhimento" à Convenção de Genebra (Tunísia, Argélia e Líbia não fazem parte); a conclusão de um sistema europeu comum de asilo; e a resposta a várias questões práticas, jurídico-policiais.



Itália milita desde há vários meses pelo levantamento do embargo à Líbia, justificado oficialmente pela necessidade de travar o tráfego de clandestinos no Mediterrâneo. Há três semanas Silvio Berlusconi deslocou-se a Tripoli para encontrar o coronel Khadaffi, mas o objectivo era antes de mais económico, como o provam as dezenas de contratos assinados antes mesmo da União ter decidido o levantamento do embargo comercial, no dia 12 de Outubro, pondo fim a 12 anos de relações cortadas entre a Europa e a Líbia. Por intervenção do governo italiano, o embargo de armas ao país, imposto em 1986, foi igualmente aligeirado para permitir o envio de "equipamento" para controlar a imigração ilegal que tenta atingir as costas europeias.

Factor de pressão adicional, dias antes da União tomar a decisão de confiar nas novas intenções do Coronel Khadaffi, o dirigente tinha utilizado o fluxo migratório como um factor de chantagem. Segundo ele, dois milhões de pessoas encontrar-se-iam nos portos da Líbia, à espera de partirem clandestinamente para a Europa. Uma situação de certa forma promovida pelo próprio coronel que tem permitido toda esta situação, ao por exemplo não exigir vistos de entrada no seu país aos cidadãos vindos de diversos países africanos que procuram na Líbia o trampolim para a Europa. São vários os relatos da forma como a polícia líbia é conivente com toda esta situação. No total trata-se de um tráfico, o de pessoas, que rende, segundo as contas da justiça italiana, mais de 10 milhões de euros anuais.


A solução de Umberto Bossi para combater a imigração clandestina: "Avisamo-los, depois disparamos".

Agora Roma e Berlim querem regular esta situação, preparando uma antecâmara da imigração, e defendendo por exemplo uma colaboração entre as autoridades da Líbia e italianas no patrulhamento da costa. Itália vai enviar nas próximas semanas, helicópteros, radares de infravermelhos e outro equipamento de vigilância às tropas do coronel Khadaffi que até agora se têm enriquecido às custas da emigração ilegal. Do alto do poder que lhe confere o controlo desta "torneira" da imigração ilegal, o coronel já se pronunciou a favor deste projecto, salientando no entanto que quer ver da parte de Bruxelas um maior investimento em África, nomeadamente na luta contra a pobreza. Mais do que com armas de destruição maciça ou com o apoio ao terrorismo, o coronel ameaça agora a Europa com uma arma mais potente, a imigração clandestina. Milhares de pessoas, desesperadas, disparadas sobre a pequena ilha de Lampedusa, onde as autoridades alertam para a incapacidade de controlar toda a costa.

Paralelamente a esta manobra de pressão, do outro lado da ilha, em Itália, o ministro das reformas de Berlusconi e polémico líder do partido de extrema-direita Liga do Norte, Umberto Bossi, não hesita em apresentar a sua solução radical para combater a imigração clandestina, como o afirmou numa entrevista ao jornal "Corriere de la Sera": avisamos uma vez ou duas vezes, e depois... bang, disparamos. Sem muita conversa. O canhão atingirá quem estiver por ali. Esta é a única forma de resolvermos a situação".

José Miguel Sardo


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Segunda-feira, Outubro 18, 2004

Os conselhos do velho professor



Não há ninguém, que conheça, que tenha tido uma cadeira de economia na faculdade e não tenha estudado pela "Bíblia", o compêndio "Economia", do Prof. Paul A. Samuelson, publicado pela primeira vez em 1948 (já na 18ª edição, agora com William Nordhaus como co-autor), que na edição portuguesa é um grande calhamaço azul, editado pela McGraw-Hill, ao qual chamávamos apenas "o Samuelson". Tudo isto para dizer que, ao contrário do que muitos pensam, o "velho" Prof. Samuelson ainda mexe, conta já 89 anos, e mais: atreve-se a desafiar os dogmas da tendência "pró-globalização", com argumentos tão simples e tão óbvios que nem precisavam ser ditos por um Prémio Nobel.

Todos os dias há notícias de empresas no mundo "ocidental" que deslocam serviços, desde fabrico de produtos ao atendimento ao cliente, para economias em vias de desenvolvimento, com vista a reduzir os custos e ganhar competitividade. Há uma factura inevitável a pagar, e quem a paga são os milhões de trabalhadores que se vêem no desemprego, substituídos por outros, em países do Leste europeu, da Ásia, da América Latina ou de África, que ganham cinco ou dez vezes menos pelo mesmo trabalho.

As empresas ganham em custos e podem assim baixar os preços e tornar-se mais competitivas. Até aqui, a ideia corrente é que só podem beneficiar com isso. Será que é assim?



Samuelson põe toda esta lógica em questão, num artigo publicado no "Journal of Economic Perspectives" (infelizmente, a leitura só está disponível para estudantes registados). A óptica é muito simples: A médio prazo, as economias vão perder com esta tendência, já que esta significa um empobrecimento das populações, perde-se poder de compra e isso acaba por ser prejudicial para a economia do país. Simplificando ainda mais as coisas: as próprias empresas, ao mandarem trabalhadores para o desemprego, acabam por pagar mais tarde essa factura, ao perderem potenciais clientes. Nas palavras do próprio Samuelson, "comprar produtos 20% mais baratos não compensa o que se perde em salários".

Palavras sábias, que não são mais que o repetir de um conceito criado há cerca de 80 anos por um tal Henry Ford, que fez uma revolução ao criar um carro que podia ser comprado pelos próprios operários da empresa. Os tempos eram outros, é verdade. E as bases da economia, será que mudaram assim tanto?

Ricardo Figueira

Leia aqui o artigo do "New York Times" sobre Paul A. Samuelson


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Sexta-feira, Outubro 15, 2004

Perguntas estúpidas

Todos os anos, dão à costa da Europa, aos milhares. Outros, entram pelas fronteiras terrestres. Aparentemente, até agora, ninguém soube como evitar que estes imigrantes clandestinos, estes requerentes de asilo, estes refugiados políticos, económicos ou humanitários entrem no território da União Europeia.



Não quero sequer questionar aqui e agora se é bom ou mau evitar a entrada de imigrantes na União. Deixo para outras núpcias as necessidades de mão-de-obra dos Vinte e Cinco, sempre de olhos postos na falta de contribuições para a segurança social e para as reformas dos nossos velhos... Não vou sequer alargar-me no facto de os fluxos migratórios serem tão velhos como a própria humanidade.

O que eu quero perceber é como é que sendo a União Europeia incapaz de evitar a entrada desses imigrantes, incapaz de cooperar eficazmente com os países de origem e de passagem desses imigrantes; vem agora propor a criação de centros de refugiados FORA da União Europeia?!

Se, até agora, ninguém consegue controlar os tais imigrantes - papão da nossa querida sociedade desenvolvida, bicho mau que vem roubar o nosso pão e os nossos postos de trabalho -, como raio é que vão fazer para os obrigar a ficar na Líbia, em Marrocos ou na Roménia???

Acham mesmo que o sonho dos imigrantes é ficar anos num "centro de acolhimento" na Líbia, "enquanto aguardam o tratamento do seu pedido de asilo"???

Estou eu baralhada ou estão-o os nossos dirigentes?! Ou tem alguém andado a atirar-nos areia para os olhos?! É que, se agora já podem circunscrever os imigrantes a estes eventuais futuros centros de acolhimento... como é que até aqui não podiam impedi-los de entrar na União??

Dulce Dias

Os interessados encontram aqui um exemplo do que se discute nas instituições europeias sobre a criação de campos de refugiados no exterior da União.


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Quarta-feira, Outubro 13, 2004

Darfur S.A.


Imagem de satélite das aldeias destruídas na província do Darfur, no Sudão.



Dezenas de empresas ocidentais presentes no Sudão tentam evitar nos últimos meses que a ONU adopte sanções contra o governo de Cartum, na sequência do massacre de milhares de pessoas na província do Darfur. Razão: os recursos petrolíferos do país que rendem anulamente mais de dois mil milhões de dólares aos cofres do governo sudanês.

Mais de 50 mil pessoas mortas e dois milhões de habitantes em fuga de um massacre que continua a ser esquecido na ausência de uma boa explicaçâo. Desde há mais de uma ano que a província sudanesa do Darfur, onde vive uma população maioritariamente negra, é alvo dos ataques violentos de guerrilhas árabes - as Janjaweed - alegadamente apoiadas pelo governo.

O executivo de Omar el-Bashir nega o apoio a estes combatentes sanguinários, provenientes por vezes das fileiras do exército sudanês, que matam, humilham e destróiem aldeias inteiras. Cartum acusa por seu lado os grupos rebeldes locais de semearem a instabilidade, por isso é vulgar encontrar nos media internacionais referências à palavra conflito para descrever a situação na região. Os grupos rebeldes que até agora se recusam a depor as armas falam de auto-defesa.

Apesar da palavra genocídio ser sussurrrada a medo dos dois lados do Atlântico, as Nações Unidas continuam a vacilar na decisão de aplicar sanções ao governo de Cartum e em enviar militares para o local e de reforçar a ajuda humanitária à população. Actualmente e segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 10 mil refugiados morrem em cada mês nos campos de refugiados ao longo da fronteira do Sudão com o Chade.

Mas as razões da hesitação das Nações Unidas podem encontrar-se sob os terrenos queimados visíveis mesmo a partir de imagens captadas por satélite. Segundo um artigo publicado no jornal nova-iorquino Village Voice, por um observador norte-americano no terreno, Eric Reeves, os recursos petrolíferos sudaneses que anualmente rendem mais de dois milhões de dólares de rendimentos para os cofres de Cartum, poderão explicar a aparente indiferença dos países asiáticos e europeus com assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas relativamente à situação.

Na lista de companhias presentes no território, que pressionam os respectivos governos a adiar as resoluções das Nações Unidas, encontram-se a Tatneft russa, a Siemens alemã, a China National Petroleum Corporation em compadrio com a norte americana Goldman Sachs, a Suiça ABB Ltd, a Alcatel francesa. Um rol de empresas que, à semelhança do que se passou no dia 18 de Setembro, continuam a bloquear a adopção de uma resolução da ONU que imponha sanções ao governo de Cartum. Mais, segundo o mesmo relato de Reeves, países como a Rússia terão mesmo vendido armamento ao governo sudanês, nomeadamente dez Mig-29, considerados os mais avançados aviões de combate da actualidade.

Actualmente o número de vítimas dos ataques das guerrilhas contina a aumentar face a um processo de paz parado. Os rebeldes do Darfur recusam-se a depor as armas, denunciando a continuação dos ataques das guerrilhas árabes, e a ineficiência dos 400 militares da União Africana mobilizados para o território em controlar toda a extensão da província.

À semelhança de outros conflitos mundiais, a situação no Darfur contrasta com a Sociedade Anónima de empresas, accionistas de um governo, que, para assegurarem os seus investimentos locais, preferem ignorar a situação local. Só a alemã Siemens, encontra-se a construir uma gigantesca central de energia eléctrica nos arredores de Cartum. Será esta a sociedade anónima afinal a financiadora do assassínio em massa, como se questiona Reeves? Os petrodólares voltam uma vez mais a ser símbolo de corrupção e de violência.

José Miguel Sardo


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Segunda-feira, Outubro 11, 2004



As vítimas de uma guerra sem mortos

A execução de mais um refém ocidental no Iraque volta a evocar a violência do conflito, assim como a instabilidade no território de onde as informações são tão mais raras quanto confusas. Com a fuga de jornalistas da região, as caras dos reféns são agora a única imagem das vítimas do conflito. Desde 91 que as câmaras que filmam a "guerra em directo" são supervisionadas por Washington para que não enquadrem a morte de ocidentais. Na ausência de informação independente, o olhar aterrorizado do britânico Keneth Bigley no vídeo captado pelos seus sequestradores, mostra agora ao ocidente o outro lado da guerra, em exclusivo e em directo, e não "incorporado". A face de um refém ocidental executado pelos seus sequestradores passou a ser o símbolo da violência no Iraque, face aos destroços e escombros onde as televisões são proibidas de filmar os cadáveres dos soldados norte-americanos.

Três anos depois dos atentados de 11 de Setembro, a América continua a ser atacada. Os três mil mortos de Nova Iorque, tornaram-se agora nas mais de 1200 baixas militares no Iraque. Ao mesmo tempo o anti-terrorismo reforçou o impacto do seu inimigo figadal. Os jornalistas que em 91 transmitiram as imagens do bombardeamento de Bagdade, limitam-se agora a retransmitir videos da execução de reféns. Keneth Bigley é a mais recente vítima da mediatização do conflito que em 1991 se transformou na primeira "guerra em directo". Uma guerra então sem vítimas, apenas destroços, semelhantes àqueles, vazios, do World Trade Center. A violência sem a consequência deu azo ao aparecimento agora dos vídeos de execuções.

Vítimas de uma guerra, sem destroços, sem explosões, à mercê de um carrasco que, enquadra o sofrimento, a sulplica e a agonia numa câmara de vídeo. A vítima passou a estar em grande plano, neste contra-ataque mediático a uma guerra sem mortos, supervisionada por Washington. Ao mesmo tempo os jornalistas vão partindo do Iraque, intimidados pelos ataques da guerrilha ou pelas ameaças do exército norte-americano. Na ausência de relatos independentes, os combatentes substituem-se aos jornalistas. Desde há várias semanas que a auto-denominada "resistência iraquiana", publica na Internet o relatório das suas últimas acções, assim como fotografias diversas.

O rapto de dois jornalistas franceses, que continuam desaparecidos, e o recente ataque contra o hotel Hilton em Bagdade, onde se encontram alojados diversos jornalistas, contribuíram para levar muitos jornalistas a optarem por partir do Iraque. A maioria daqueles que ainda se encontram no país não hesitam em referir que permanecem quase todo o dia fechados no quarto de hotel com medo de serem raptados ou atacados durante uma saída em reportagem, limitando-se a deslocar-se ao final do dia às instalações do exército norte-americano para assistir à conferência de imprensa diária na "zona verde" de Bagdade (o quartel-general do exército norte-americano). Até agora, e desde o início do conflito no Iraque que 42 jornalistas foram mortos, alvo dos ataques da guerrilha, mas também dos tiros dos soldados norte-americanos.



Os nossos olhos no Iraque vão-se fechando e na retina ficam agora apenas as caras dos reféns, desaparecidos, nas suas súlplicas frente a uma câmara de vídeo, ou executados a sangue frio. Vítimas de um conflito, mas também de decisões tomadas por políticos que, mesmo postas em causa por revelações recentes, não hesitam em referir que o Iraque está melhor sem uma ditadura atroz, mas sem garantir a tão admitir que a tão propagandeada democracia não foi instaurada, como previsto. A comprová-lo, a sulplica de Bigley a Tony Blair para que retire as suas tropas no Iraque de forma a salvar-lhe a vida. Tarde demais.

José Miguel Sardo


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Sexta-feira, Outubro 08, 2004



Elogio do obscurantismo

A notícia já tem uns dias, mas não é tarde de mais para reflectir sobre ela: na sua deslocação a Nova Iorque, para participar na assembleia-geral das Nações Unidas, Santana Lopes condecorou o antigo embaixador Frank Carlucci com a grã-cruz da Ordem do Infante.


Justiça tardia ou infâmia? O que levou o governo de Durão Barroso (já que foi este a propor a condecoração, mesmo se ela foi entregue por Santana Lopes) a decidir dar ao antigo embaixador norte-americano, trinta anos depois do 25 de Abril, uma das mais altas distinções do Estado?

Segundo a argumentação do Governo, o acto serviu para agradecer a Carlucci os serviços prestados à Nação ao impedi-la de cair nas mãos do comunismo durante o período revolucionário. Sobre esta questão há que reflectir: em primeiro lugar, sobre quem teve o papel principal no triunfo da democracia em Portugal. Se a CIA (que o embaixador alegadamente já representava e da qual foi nomeado director-adjunto em 1978, mal deixou o cargo), com as suas maquinações sinistras e jogadas de bastidores, ou o povo português, que disse "presente" no famoso comício da Alameda.

Admitindo que a "máquina" da inteligência norte-americana teve um papel a desempenhar no processo democrático, e supondo mesmo que esse papel tenha sido limpo e positivo " isto numa hipótese meramente académica - este é um ponto que joga a favor da condecoração a Carlucci.



Vejamos agora os pontos contra. Em primeiro lugar, Carlucci representou durante décadas a ingerência norte-americana nos assuntos internos de outros países, com o único intuito de impedir o alargamento da esfera de influência soviética. A CIA é famosa por tudo menos pelos métodos claros, transparentes e limpos com que trabalha. Nem o Senado tem acesso a alguns documentos e só isto diz tudo. Um ano antes do 25 de Abril, os serviços secretos norte-americanos fizeram um serviço à "democracia" ao colocar no poder o General Pinochet no Chile, para dar só um exemplo.

Depois de (pelo menos aparentemente) ter deixado a vida política, Carlucci tornou-se presidente de uma das mais obscuras organizações de que há memória: o grupo Carlyle. A própria revista "The Economist" qualifica este grupo como "secretista e que dá ao capitalismo um mau nome" - com um conselho de administração que junta nomes sonantes de políticos reformados da direita mundial, como George Bush Sénior, James Baker ou John Major, e grandes somas investidas na indústria da defesa, o Carlyle dedica-se a fazer milhares de milhões de dólares à custa da "guerra global contra o terrorismo". Nunca os poderes político, económico e militar estiveram tão perigosamente juntos. O mesmo artigo do "Economist" salienta o papel preponderante que Carlucci teve no desenvolvimento do grupo:

«Carlyle really only took off after it hired Frank Carlucci, a former secretary of defence and deputy director of the CIA, in 1989. Mr Carlucci was able to open doors in Washington that had hitherto been closed to the firm, allowing it to participate in many lucrative deals».

Recentemente, o Carlyle falhou por pouco a aquisição de 45% do capital da Galp Energia, apesar do "charme" de Carlucci, que chegou a encontrar-se pessoalmente com o primeiro-ministro sobre este assunto. Terá a condecoração sido uma compensação?
Posto tudo isto, só é possível concluir que a grã-cruz dada a Carlucci é o maior elogio possível à política de corredor naquilo que ela tem de pior. É um elogio ao murmúrio, ao que se faz por debaixo da mesa e se tem vergonha de mostrar. À mais vil concubinagem entre interesses públicos e privados. Enfim, ao obscurantismo de tudo aquilo que se faz e decide sem vir nos jornais, de tudo aquilo que povoa a mente dos teoristas da conspiração.

(c) Ricardo Figueira

Leia aqui o artigo do "Economist" sobre o grupo Carlyle


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Quinta-feira, Outubro 07, 2004


A estratégia de Ariel Sharon

Mais comandante militar que primeiro-ministro Ariel Sharon prossegue uma política ambígua no Médio Oriente, entremeando acordos de paz e ofensivas militares. Última pedrada no charco, a declaração de um dos principais assessores de Sharon, Dov Weisglass, que afirma que o plano de retirada da faixa de Gaza serve apenas como pretexto para congelar o processo de paz, prevenindo a criação de um estado palestiniano. A polémica adiciona-se àquela relativa à operação militar na faixa de Gaza, que ao nono dia de ataques aéreos, já provocou mais de 80 mortos palestinianos.

"O objectivo do plano de retirada militar da faixa de Gaza passa antes de mais pelo bloqueio do processo de paz", a afirmação é de Dov Weisglass, um dos mais próximos assessores do primeiro-ministro israelita Ariel Sharon. Numa entrevista que será publicada na sexta-feira no jornal israelita "Haaretz", Weisglass vai mais longe e conclui que, "bloquear o processo de paz significa evitar a criação de um Estado Palestiniano, escapar a negociações em torno das questões dos refugiados, das fronteiras ou da partilha de Jerusalém".

A impotência da comunidade internacional para intervir em Israel é tão mais evidente quanto mais imperceptível é a estratégia de Ariel Sharon. O primeiro-ministro israelita tem resistido a todas as formas de pressão, dos votos de desconfiança do seu partido, a acusações de corrupção, à pressão das Nações Unidas e da iniciativa de Genebra (que durante alguns meses pareceu ser a solução para o longo conflito do Médio Oriente), e mesmo às decisões do tribunal internacional de justiça e do próprio supremo tribunal israelita, relativas à alteração do traçado da "barreira de segurança".

Virando as costas ao chamado "Roteiro para a paz no Médio Oriente", Sharon inventou o seu próprio plano para pacificar o Médio Oriente, ou seja, retirar todos os colonatos e militares da Faixa de Gaza até 2005, reforçando a separação com a Cisjordânia através de uma "barreira de segurança", com centenas de quilómetros.

Um plano de paz cujas reais intenções são agora reveladas pelo seu próprio assessor que confessa, meses depois do abandono do chamado "roteiro para a paz", que, "todo este projecto de um Estado Palestiniano, em todos os seus detalhes, foi definitivamente removido da nossa agenda com o conhecimento e permissão do presidente, e a aprovação das duas câmaras do Congresso".

As declarações agitaram a opinião pública internacional. A Casa Branca pediu explicações a Sharon, mas poucas horas depois, contactada pelo primeiro-ministro israelita, a presidência norte-americana renovou a sua confiança no comprometimento com o "roteiro para a paz". Há poucos dias atrás, Washington bloqueara a aprovação de um resolução a ordenar o fim das operações militares na Faixa de Gaza. Mas apesar da aliança forte que liga os Estados Unidos a Israel desde a criação do estado, os assessores de George Bush, já preocupados com as contradições do presidente, não terão dado a devida atenção ao final do excerto da entrevista publicado pelo Haaretz, onde o assessor de Sharon refere que, "o anúncio da retirada militar da Faixa de Gaza fornece uma quantidade de calmante suficiente para evitar um processo político com os palestinianos". Afinal qual é a estratégia de Sharon?


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Terça-feira, Outubro 05, 2004

O "read my lips" de Bush

Alguns analistas consideram a campanha eleitoral levada a cabo por George Bush como uma das mais bem elaboradas dos últimos cinquenta anos. O elogio talvez se adapte mais à quesão da imagem do que da argumentação do candidato. A questão essencial é sempre a mesma, será que Bush consegue afastar-se da sua própria imagem celebrizada pelos "Bushismos" e pelas poses de cowboy transformado em comandante internacional da luta anti-terrorista. Afastando-nos dos Estados Unidos a campanha feita em Israel pelos apoiantes republicanos locais "Republicans Abroad Israel", parece remeter Bush ao seu perfil de rancheiro texano. Aqui os textos de Bush relativos à cooperação histórica dos Estados Unidos com Israel passam para segundo plano face às fotos que, segundo o site, "falam por si". Novo argumento eleitoral contra Kerry, uma pose fotográfica menos viril que Bush, um beijo menos afectuoso do que o do presidente norte-americano.



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Sexta-feira, Outubro 01, 2004


A sorte de não ter Aznar

O líder sombra da oposição espanhola continua a distribuir declarações incoerentes nos media estrangeiros para reabilitar a sua imagem de primeiro-ministro. Depois de ter defendido uma vez mais a responsabilidade da ETA nos atentados de 11 de Março, Aznar foi mais longe. Para descartar a tese de que os atentados seriam devidos ao apoio de Madrid à guerra no Iraque, o antigo primeiro-ministro não hesitou em afirmar que o problema de Espanha com a Al-Qaida remonta já ao século VIII.



O antigo primeiro-ministro espanhol parece não ter ainda digerido a derrota eleitoral que se seguiu aos atentados de 11 de Março em Madrid. Aznar, que nas últimas semanas conseguiu criar um cargo honorífico no seu partido (Partido Popular) que lhe garante agora um papel de quase líder da oposição, continua a defender a sua actuação no governo, continuando a afirmar que a ETA estaria por detrás dos atentados em Madrid. A hipótese foi descartada há dias pela comissão que em Espanha analisa as circunstâncias dos ataques.

Para desculpar e justificar a ineficácia dos seus esforços, Aznar, não hesitou mesmo em afirmar que os problemas de Espanha com a Al-Qaida já vêm do século VIII. Discípulo assumido de George Bush, Aznar consegue superar o mestre, a "cruzada" passa assim de metáfora para grito de guerra. Ao mesmo tempo Aznar retira legitimidade a Bush como comandante da ofensiva terrorista, mostrando que o "terrorismo islâmico" é um movimento histórico, que percorre a actualidade do mundo há muitos séculos, antes do 11 de Setembro e antes do 11 de Março. Uma justificação das suas acções que acaba por legitimar o terrorismo internacional.

É cada vez mais evidente que Aznar assume um papel de líder "sombra" da oposição espanhola, empenhado antes de mais em limpar a sua imagem enquanto primeiro-ministro. Mariano Rajoy, oficialmente líder da oposição, parece ter consciência do seu papel secundário. Recentemente aceitou um convite de uma estação de radio espanhola para ser comentador desportivo.

>José Miguel Sardo



O artigo publicado no sítio da CNN+ (espanhola):
El ex presidente del Gobierno José María Aznar ha dado su primera clase como profesor de la Universidad de Georgetown en Estados Unidos. En ella ha señalado que los problemas de España con Al Qaeda comenzaron en el siglo VIII, cuando fue conquistada por los moros y rehusó perder su identidad.

José María Aznar se ha estrenado como profesor en la Universidad estadounidense de Georgetown, en Washington, donde este martes ha dado un discurso sobre el terrorismo, pronunciado en inglés y con el título: "Siete teorías del terrorismo actual".

Ante una audiencia compuesta en su mayoría por estudiantes, Aznar ha advertido de que la lucha contra el terrorismo es "una guerra no convencional".

Esta era la tercera vez que Aznar hablaba en el auditorio principal de esta universidad y ha comenzado advirtiendo a su audiencia sobre su precario nivel de inglés: "Si Arnold Schwarzenegger ha llegado a gobernador de California con su peculiar acento, pienso que hay esperanza para mí".

Aznar ha iniciado su intervención recordando que él mismo fue víctima de un atentado de ETA, a la que ha dejado "abatida pero no vencida" tras sus ocho años de Gobierno.

Según el ex presidente del Gobierno, el mayor enemigo hoy es el terrorismo islámico, como el que encabeza el máximo responsable de la red Al Qaeda, Osama Bin Laden, a quien ha comparado con Adolf Hitler.

Así, ha alertado de la posibilidad de un atentado terrorista en Estados Unidos antes de las elecciones de noviembre y ha insistido en que los atentados del 11-M en Madrid no estuvieron relacionados con el apoyo de su Gobierno a la guerra de Irak.

"Mucha gente en España y en Europa cree que los atentados del pasado 11 de marzo en Madrid están relacionados con el apoyo del Gobierno español a la guerra en Irak pero el problema con Al Qaeda en España no empezó con la crisis iraquí" sino que viene de mucho más atrás, ha asegurado Aznar, para quien el origen está en la conquista de la Península Ibérica por parte de los árabes en el siglo VIII y la resistencia mostrada por los españoles.


>Ler o artigo na página da cnn+


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Bush derrotado no Iraque

Em Espanha o Iraque fez caír um governo, no Reino Unido abala outro, em Itália e na Polónia sobressalta a população, nos Estados Unidos a questão iraquiana levou ontem George Bush a uma primeira derrota na abertura da campanha eleitoral para a Casa Branca. Karl Roove, o obreiro da imagem de Bush, deverá agora interrogar-se: "qual a eficácia eleitoral da questão iraquiana?". O tiro anti-terrorista pode ter saído pela culatra. Mas Kerry lembrou no entanto que não concederá a nenhum país o direito de vetar questões de segurança nacional norte-americana.



Vencedor no combate anti-terrorista nos dias que se seguiram ao 11 de Setembro, George Bush foi esta noite derrotado pela questão iraquiana, durante os noventa minutos do primeiro debate com o candidato democrata John Kerry. O homem que lançou um grito de guerra contra o terrorismo sobre as ruínas das torres gémeas, não conseguiu justificar a razão da morte de centenas de soldados no Iraque.

À semelhança de Tony Blair, Bush desdobra-se nas últimas semanas em "meias-desculpas" relativamente aos erros dos serviços secretos, embora os dois líderes sublinhem, por outro lado, que não se arrependem de ter feito caír Saddam Hussein. Mas e, como, Kerry lembrou ontem, a luta para tornar a América e o mundo mais seguro ignorou outros focos de conflito como a Coreia do Norte, ou a violência contra a província do Darfur no Sudão.

O Iraque tornou-se uma obcessão em vez de um símbolo como desejaria a Casa Branca. Horas antes do debate, um ataque em Bagdade evocava o caos actual porque passa o país, onde o discurso da normalização política é cada vez mais abafado pelo som das explosões das viaturas armadilhadas, dos tiros de Kalashnikov e das súlplicas dos reféns europeus.



Mas a derrota de Bush, no debate, poderá ter consequências internacionais, especialmente entre os outros líderes da coligação militar presente no Iraque, que em cada país defenderam, como puderam, a intervenção no Iraque, repetindo argumentos que Bush e Blair já desmentiram. Em Espanha, Aznar, chegou mesmo a dizer que os serviços secretos espanhóis sabiam que o Iraque tinha armas de destruição maciça. Em Portugal, o "mea-culpa" fica por se ouvir, tanto da parte dos líderes políticos como dos jornais onde vários directores assinaram editorais incendiários a favor da intervenção militar contra o terrorismo internacional e as armas de destruição maciça de Saddam.

Esta noite há um argumento eleitoral que deixou de ser eficaz para mobilizar a opinião pública. Nos Estados Unidos, no Reino Unido, em Portugal, em Itália, em França e na Alemanha, a população quer ouvir falar de política interna, de segurança social, de emprego, de deslocalizações. A política que se resumiu ao "sim" ou "não" à guerra no Iraque, e à luta contra o terrorismo internacional vê o fim de um ciclo. Os Estados Unidos que saudaram nas sondagens a "performance" de Kerry terão agora que se interrogar, para lá da guerra no Iraque, o que é que realmente distingue os dois candidatos.

Aguardemos pois com expectativa o debate sobre política interna para vermos como os Estados Unidos, assim como os outros países pró ou contra, sofreram na sua economia e sociedade esse "esforço de guerra" global que se chama guerra no Iraque. Qual será, afinal, o custo político da "pax americana"?

>José Miguel Sardo


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